MAGISTÉRIO E DESILUSÃO

MAGISTÉRIO E DESILUSÃO

Já se vão alguns anos. Nunca a tinha visto naquele estado. A expressão emoldurada por um profundo desalento propagava uma tristeza de causar inveja ao mais pessimista dos mortais. Os ombros caídos refletiam a derrota de quem acabara de perder uma batalha decisiva. A voz, antes firme e habituada a articular com cadência as palavras, agora se mostrava hesitante e carente de entusiasmo. A segurança e convicção na defesa de suas utopias e princípios pedagógicos haviam cedido lugar à mudez, própria de quem entrega as armas e recolhe-se ao silêncio do conformismo. Diante da insistência de minha voz, que nada dizia, mas cobrava um desenlace para aquela situação, resolveu, num extremo poder de síntese, cantar a pedra: “Pedi exoneração”.

Sua trajetória começara bem antes. Ainda aluna do ensino fundamental, já alimentava o desejo de se ver assumindo o comando de uma sala de aula e contribuindo para a formação de um punhado de crianças a cada ano. Do sonho à ação, não se permitiu tempo a dúvidas. Mostrava orgulhosa, ao sair de casa todos os dias pela manhã, trajando o uniforme que a identificava como aluna do curso magistério e consagrava a sua firme convicção de ser professora e, diga-se de passagem, do ensino público. Tanto que, no dia da esperada formatura, as mais de três horas de espera pela chamada de seu nome para subir os três degraus do pequeno palco e, orgulhosamente, pôr as mãos no certificado não pareceram mais que breves minutos. Foi um momento de pura emoção festejado com lágrimas de alegria.

Mas teve que adiar o aguardado encontro com a sala de aula. Num misto de prudência e certeza de que deveria dar o melhor de si, decidiu, sempre com convicção, que prestaria vestibular e faria um curso superior para, mais seguramente, dar realidade ao seu projeto. Os quatro anos de graduação, incluindo aí o tempo de estágio obrigatório, pareciam ter sido suficientes para alargar e consolidar seus conhecimentos e permitir o manejo de ferramentas pedagógicas essenciais ao desempenho de sua sonhada profissão. Não o foram. O excesso de zelo motivou-a a cursar uma pós-graduação na sua área de interesse. Agora, sim, julgava-se pronta para ir à luta em busca de um lugar ao sol, ou melhor, em uma sala de aula.

Sempre alheia às insinuações desanimadoras sobre o magistério, não contou dúvidas: prestou concurso, foi classificada entre os primeiros lugares e, logo depois, esbanjando indisfarçável vaidade, assumiu, como se diz, a sua cadeira de professora. Nos primeiros dias de aula, deu-se conta de que eram muitos os alunos, mas poucas as carteiras para abrigá-los; nos dias seguintes, constatou que, além de poucos em relação aos muitos alunos em cada turma, os livros didáticos deveriam ser retrabalhados, afinal os novos talvez chegassem apenas no segundo semestre; nos outros dias, percebeu que eram exageradamente frequentes as interrupções de suas aulas em função de tantas outras atividades chamadas de extraclasse; nos demais dias, descobriu que precisava comprar seus próprios pincéis para poder usar o quadro, pois a escola não dispunha desse material; depois, deu-se conta de que havia mais reuniões do que o necessário; em seguida, percebeu que era desafiada a fazer um milagre: ao mesmo tempo em que, quando não havia reuniões ou atividades extraclasse, conseguia ministrar aulas para um grupo de alunos, com outros tinha que desenvolver um trabalho paralelo de recuperação; um pouco adiante, espantou-se ao ver que a sua competência profissional e pedagógica era avaliada, em última instância, por pais e alunos; em outro momento, não entendeu o fato de ter feito um curso de pós-graduação, mas receber salário como se tivesse apenas graduação…

Diante do fato, dei uma de herói contemporizador, tentando convencê-la de que tantos anos de estudos e sonhos tão nobres não poderiam sucumbir diante de apenas três meses de experiência no magistério. Dirigiu-me um olhar de quase desprezo e, sem dizer uma palavra, sacou da bolsa o seu último contracheque e mostrou-me o valor do seu salário na rede municipal de ensino: vergonhoso. Em seguida, com expressão de desalento e indignação, catou um recorte de jornal recente. Era um edital de concurso para o Tribunal de Justiça do Amazonas. Dentre outras informações, havia uma destacada por um círculo vermelho, onde se lia: Serviços Auxiliares. Requisito: ensino fundamental incompleto (antiga 4ª série do 1º grau). A remuneração inicial da carreira era duas vezes o seu salário de professora. Haveria argumento mais contundente para justificar a sua desilusão?

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