MATERIAL VENCIDO

MATERIAL VENCIDO

       O tempo dedicado ao que se pode chamar de dever de ofício tem sido cruel nos últimos tempos. Quase nada sobra para um hábito que sempre cultivei: o da leitura. O resultado? Tenho me tornado um campeão em leitura de pedaços de livros. Me dá (o computador insiste em me lembrar que é “dá-me”. Às favas! Como diria Bandeira, estou farto do lirismo que não é libertação.) uma estranha sensação de incompletude e de injustiça para com eles. No afã de me contrapor ao tempo diminuto, começo a ler uma obra e, vencidos alguns capítulos, me vejo na obrigação de já assumir outra e, desse jeito, vou acumulando pelo caminho um sem-número de livros devorados pela metade, sempre com a promessa, pouco cumprida, de retomá-los lá na frente, quando o tempo me der uma trégua. Enquanto isso não acontece, me pego sem quê nem pra quê buscando alternativas que possam amenizar a incompatibilidade entre querer e poder. Criei, por exemplo, o hábito de investir, sempre que posso, algum tempo frente à estante. Abro aleatoriamente um ou outro livro e leio algumas poucas páginas, na ilusão de que, assim fazendo, dou a eles pelo menos um breve acalanto e uma satisfação. Pois nesses dias estava eu nesse exercício de fidelidade e carinho quando me bateu uma súbita revolta. Dei-me conta, só agora, de que pelo menos noventa por cento dos livros amealhados ao longo da vida estão vencidos. Isso mesmo. Vencidos! O novo acordo ortográfico da língua portuguesa decretou que todo esse material é hoje coisa do passado. Situação bem pior para algumas ferramentas de trabalho. O que dizer de minhas gramáticas? A “Nova gramática da língua portuguesa”, do professor Celso Cunha, já não pode ser assim considerada. Subitamente tornou-se velha. A “Gramática escolar”, do Evanildo Bechara, por outro lado, já não pode cair nas mãos dos alunos, sob pena de cometerem “erro” e lascarem o acento agudo em “europeia”, o que, convenhamos, nessas alturas não é uma boa “ideia”. Situação mais dramática, ainda, é a da “Novíssima gramática da língua portuguesa”, do ortodoxo Domingos Paschoal Cegalla. Do dia pra noite, o novo acordo ortográfico decretou, sem apelo, que de novíssima ela não tem nada. Hoje é uma velhíssima gramática. E meus dicionários? O “Novo Aurélio” transformou-se em peça rara. Como diria minha mãe, não alui mais uma pena. O meu “Dicionário Houaiss”, lançado com tamanha pompa, me custou os olhos da cara e está ali na estante como peça fora do baralho. Penso que estou a merecer uma boa indenização pelo vultoso prejuízo.

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