MINHA DÍVIDA COM HEMINGWAY

MINHA DÍVIDA COM HEMINGWAY

       Nem o velho Hemingway sabia de minha dívida com ele. Claro que não! Fiz minha promessa em meados da década de noventa do século passado, quando ainda cursava o doutorado na PUC de São Paulo. Ele nos deixara muito antes, em 1961, aos sessenta anos, sete depois de ganhar o Nobel de Literatura e quando eu ainda tinha apenas 10 anos. Além do mais, a promessa fora feita comigo mesmo. Portanto não havia como Ernest Hemingway saber. E por que estou trazendo à tona tais lembranças? Porque finalmente cumpri a promessa e li seu livro “Paris é uma festa”. E o fiz com enorme, mas justificada sofreguidão, coisa pouco comum em minhas leituras. E não foi à toa. Me dei conta de que a promessa fora paga nas circunstâncias mais oportunas. Explico-me. Nada mais delicioso, nada mais envolvente, nada mais geograficamente orientador, nada mais etílico e gastronomicamente aprazível do que ler “Paris é uma festa” depois de conhecer, ainda que um pouco, da Paris de hoje, que, no fundo, é a mesma Paris de Hemingway, embora sem a efervescência da época. A leitura leve, fluida, descontraída e cativante da narrativa de seus primeiros anos de paixão pela cidade atiça a todo momento a memória, que busca o conforto e o prazer de saber que já estivemos em algumas ruas e lugares que serviram de inspiração a Hemingway. E aí se torna inevitável concordar com a declaração final de seu amor por Paris: “Mais cedo ou mais tarde, não importa quem sejamos, não importa como o façamos, não importa que mudanças se tenham operado em nós ou na cidade, a ela acabamos regressando. Paris vale sempre a pena e retribui tudo aquilo que você lhe dê”. Pronto! Cumprida a dívida com Hemingway, resta-me lembrar de uma conversa sua com o amigo Evan Shipman em seu café predileto, o Closerie des Lilas. Falando sobre escritores, Hem, como chamado por Evan, desabafa o seguinte sobre Dostoievski: “Como é possível alguém escrever tão mal, tão incrivelmente mal, e ainda assim comunicar tanta emoção a quem o lê?” Eu diria sobre Hemingway: como é possível alguém trabalhar a sofisticação de um texto com tamanha simplicidade e, ainda assim, colocar os leitor aos seus pés?

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