O DURO OFÍCIO DA ESCRITA

O DURO OFÍCIO DA ESCRITA

Já faz um bom tempo e foi uma interessante coincidência. Havia assumido comigo mesmo o compromisso. Seria a última tentativa para encontrar, naquele momento e dentre dezenas de canais, um que estivesse com uma programação decente. Caso não desse certo, clicaria com frieza o botãozinho do controle remoto e iria cantar em outra freguesia. Contei até três e apostei aleatoriamente no próximo canal. Captei o final das palavras do entrevistador. Perguntava ele sobre o prazer dela já ter produzido diversas obras de referência para a literatura brasileira e continuar escrevendo semanalmente crônicas para o jornal O Estado de S. Paulo. Lá estava Rachel de Queiroz, fala mansa, por trás daqueles pesados óculos que lhe eram característicos e com aquela simpatia nordestina que sempre a tornava um nosso ente querido e da família. Olhou fixamente para o interlocutor, apontou em direção à mesa de trabalho no canto direito da sala de seu apartamento e indagou se ele via ali alguma pilha de textos acabados e prontos para publicação. Diante da resposta negativa e desapontada, Rachel acrescentou que, diferentemente do que se podia imaginar, escrever, para ela, envolvia um permanente e árduo desafio. Chegava mesmo a representar momentos de sofrimento e angústia o duro embate para fazer as ideias, transformadas em palavras, obedecerem aos propósitos do que ela julgava corresponder a um texto de qualidade. Sem contar com o fato de que esse produto, enquanto não lhe escapasse das mãos e conseguisse a autonomia da publicação, continuava a consumir suas horas de vida na busca de um melhor aprimoramento. Portanto, escrever, para ela, não era um ofício diletante e confortável, mas um trabalho exaustivo e suado do qual ela tirava o seu pão de cada dia. Como eu nutria a mesma ilusão do entrevistador da autora de O quinze, aquelas palavras me serviram de um fortalecido estímulo para continuar praticando essa ingrata e permanente luta de parir um texto. Tempos mais tarde, lendo os Cadernos de Lanzarote, de Saramago, deparei-me com um desabafo seu que confirma com precisão aquele desabafo de Rachel. “Ah, se as pessoas soubessem o trabalho que me deu a página de abertura de Ricardo Reis, o primeiro parágrafo do Memorial…” Mais recentemente, folheando uma dessas revistas vencidas que descansam nas salas de espera de consultórios médicos, aparece-me o Luiz Fernando Veríssimo a se maldizer: “Escrever não é uma coisa que me dá muito prazer. Tenho mais prazer na música. Escrever é sofrido às vezes. (…) Mas nunca é prazeroso”. Se, para esses monstros consagrados, a coisa é desse jeito, imaginem para nós, pobres mortais.

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