O IMPÉRIO DE GÉRSON

O IMPÉRIO DE GÉRSON

Cena 1. Interior de um banco. Longa fila. Sofrida espera para chegar à boca do caixa. Duros quarenta minutos. O ar condicionado não dá conta. O clima torna-se pesado e a respiração ofegante. Ouve-se o ruído dos abanos improvisados com boletos bancários de água, luz, telefone. Do outro lado, separado por sua redoma de vidro e alheio ao burburinho, o caixa opera sem pressa e mecanicamente seus gestos. No canto, à esquerda, um segurança de peito empinado acompanha impassível aquela movimentação. De repente, parecendo estar ali por puro capricho, surge a figura clássica. Desinibida, cumprimenta todos na fila, como se fossem seus velhos conhecidos. O segurança recebe uma saudação especial. É merecedor de um breve e alegre papo, além de tapinhas nas costas. Num passe de mágica e com absoluta naturalidade, a figura já está na boca do caixa sendo atendida. Repete o ritual de sorrisos e cumprimentos até sumir por trás da porta giratória. O que para outros demorou média de quarenta minutos, para ela resumiu-se a três.

Cena 2. Sala de espera do Detran. Último dia do mês para regularizar veículos com placas terminadas em zero. Na entrada, à direita, ele retira a senha. Número 726. Ao erguer a cabeça e liberar os ouvidos, depara-se com uma multidão e com um ensurdecedor conflito de vozes. Poltronas inteiramente ocupadas e muitas pessoas preenchendo o espaço dos corredores laterais, onde se encontram dezenas de guichês, primeiro estágio do atendimento. Por trás da multidão, no alto da parede, o painel indica o atendimento da vez: senha 431. “Só tem 295 na minha frente”, tenta se convencer com essa expressão de ênfase. Por cima das centenas de cabeças, numa sala contígua, visualiza, distante, uma enorme e estranha fila que, de tantas voltas, perdeu a identidade do seu próprio rabo. É a fila do banco, segundo estágio do atendimento. Nem bem estuda o ambiente, procurando o inexistente espaço que lhe cabe naquele território, ele percebe a chegada da figura clássica. Toda arrumadinha, camisa fechada até o último botão. Com o olhar aguçado de uma águia, visualiza todos os guichês, ao mesmo tempo em que destaca o papelzinho da senha, amassa-o e guarda no bolso. Só para cumprir o ritual. Ele calcula que a figura pegou a senha 750. Tendo mapeado sua direção, ela marca linha reta rumo a um dado guichê. Ao longo do percurso, repete-se a cena. Distribui cumprimentos e tapinhas nas costas a quem quer que se encontre no caminho. Aproxima-se do funcionário e ignora a pessoa que estava sendo atendida. Simulando intimidade, dispara-lhe um efusivo aperto de mão e um carinhoso afago nos cabelos, no estilo político profissional às vésperas da eleição. Em poucos minutos recebe a sua papelada pronta e carimbada. Marca carreira em direção ao banco. Prevendo dificuldades para encontrar o rabo da fila, entabula um animado papo com a mocinha que, estando na vez, aguarda ser chamada. Ao ouvir a voz do funcionário – “o próximo!” –, sapeca um beijinho em cada lado do rosto da interlocutora e, entre sorrisos e contidas gargalhadas, dirige-se ao caixa. Missão cumprida, atravessa o longo corredor rumo à saída, sempre distribuindo simpatia e cinismo. O observador olha para o painel: atendimento número 437. Olha de novo para sua senha: 726.

Cena 3. Cruzamento. Sinal com defeito. Forma-se uma longa e paciente fila à espera da vez. Seu carro é o terceiro. Pelo retrovisor da direita, num desses exercícios bobos de ocupar o tempo, tenta contar quantos carros estão atrás do seu. Ao contabilizar 17, percebe que um veículo se aproxima velozmente do retrovisor. Dá-se conta de que os pneus da direita estão sobre a calçada e os da esquerda sobre o meio-fio. É a figura clássica! Passa ao seu lado impostando aquele risinho de canto de boca que ele traduz na hora: “Por que não é vivo como eu?”

Cena 4. Estacionamento do shopping. Ele para o carro à direita e liga a seta para a esquerda. Aguarda com paciência o sujeito que, percebendo sua intenção, só por maldade demora uma eternidade para desocupar a vaga. Para não comprar irritação, coloca o câmbio em ponto morto e puxa o freio de mão. Resolve olhar o movimento de pessoas na entrada principal do prédio. Numa questão de segundos, sua vaga é ocupada pela figura (a figura clássica!), que, com um ar de suprema argúcia, sai do veículo com aquele mesmo risinho e se põe a desfilar, tilintando as chaves, como se fossem o troféu da vitória.

Revogue-se a Lei de Gérson ou instaure-se a barbárie!

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