O MAL DO SÉCULO

O MAL DO SÉCULO

A ciência moderna encontra-se diante de um novo desafio: revelar as causas dessa epidemia, desse novo mal do século. Outro dia, num voo prestes a pousar, a partir daquele momento em que o comandante anuncia “já iniciamos o nosso procedimento de descida”, notei, no extremo oposto da fileira, um jovem aparentando entre dezoito e vinte anos. Começou a ensaiar estranhos sinais de inquietação. Alisava os cabelos com frequência. Batia com lentidão a testa na poltrona à sua frente. Olhava com intermitência para o relógio. Fechava e abria a portinhola da janela e, principalmente, apalpava, ao mesmo tempo com sofreguidão e carinho, algum objeto em seu bolso direito, como se procurasse apoio para aliviar um indecifrável drama. Pouco antes do avião tocar o solo, enfiou a mão no dito bolso, esboçou uma expressão de puro contentamento, sacou o celular, ligou-o às pressas e, em questão de segundos, enquanto a aeronave deslizava a 200 quilômetros por hora, refestelou-se na poltrona e pôs-se a falar risonha e realizadamente. Outra ocasião. Observei uma jovem embarcar segurando firmemente algo na mão esquerda. Algum bem muito caro, correndo algum risco de cobiça, pensei com meus botões. Ao acomodar-se, pouco à minha frente, percebi que era apenas um celular desses bem pequenininhos. Outro dia, sentei-me, como gosto, numa poltrona no corredor. Uma senhora de idade pede-me licença. Levanto-me. Ela ocupa a poltrona do meio. A comissária anuncia que os celulares devem ser desligados. A senhora rapidamente digita um dado número e diz: “Oi, minha filha, já estou dentro do avião”. E desliga. Juro! Essa outra também é verdade. As três poltronas ocupadas. Eu, de novo, na poltrona do corredor. Dou-me conta de que o passageiro da janela, um senhor já passando dos quarenta, está já há algum tempo agachado. Cabeça entre as pernas. Estaria ajeitando o cadarço do sapato? Qual nada! A aeronave a dez mil metros do chão e aquela criatura tentando contato sabe-se lá com quem. Há um tipo muito comum. Entra no avião cercado de sacolas e malas por todos os lados. Dispensável comentar os transtornos. Celular milagrosamente colado no ouvido. Pelo tom da conversa, antecipa as novidades da viagem. A voz espalha-se em altos decibéis pelo interior do avião, fazendo-me crer que o telefone é perfeitamente dispensável. Há outro tipo, ainda. Embarca silenciosamente. Acomoda a enorme mala no pequeno bagageiro. Ocupa a sua poltrona. Saca o celular da cintura e fixa o olhar no aparelho. Ar compenetrado e triste. Quando o comandante anuncia “tripulação, portas em manual” e a comissária anuncia aos passageiros que, a partir daquele momento, os celulares devem ser desligados, a criatura olha para um lado e outro, como quem implora ajuda, volta a olhar fixamente para a maquininha e a desliga atravessado de dor. Freud estaria ferrado.

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