O MÉDICO E O PROFESSOR

O MÉDICO E O PROFESSOR

Não compartilho da crença de que, quando nada se tem a fazer, joga-se conversa fora com os amigos ou, como se falava antigamente, conversa-se fiado, no sentido de que se fala por falar, diz-se por dizer, como se, de repente, a linguagem se destituísse de significado. Creio muito mais no princípio lembrado por Saramago, em seu livro de memórias, de que nenhuma palavra é inocente, isto é, nada do que se diz é gratuito; tudo o que se diz tem um valor linguisticamente socializado.

Dia desses, por exemplo, numa conversa com um amigo, exercitei a formulação de uma tese que, a princípio absurda, pura conversa fiada, depois se mostrou, para mim, carregada de sentido. Fiz uma comparação entre o que se convencionou chamar de erro médico e a negligência de um professor.

A falha de um profissional da área médica, como vez ou outra a mídia noticia, resulta em luto e dor nos familiares e amigos da vítima. Apesar de gerar revolta e indignação, pois tira a vida de alguém ou lhe causa sequelas irreversíveis, acredito tratar-se de algo pontual. Mas não quero, de forma alguma, atenuar a responsabilidade de profissionais por fatos dessa natureza. Confirmada a culpa, devem sofrer as penalidades e essas sanções devem ganhar o máximo de transparência, para que outras pessoas evitem cair nas mãos da imperícia.

Não há histórico, por outro lado, de que a negligência pedagógica de um professor tenha causado revolta ou sofrimento em alguém. Talvez isso se deva ao reduzidíssimo valor que, em nosso país, dispensa-se ao profissional do magistério, fato que ganha evidência com o muito que dele se exige de formação e responsabilidade e o pouco que historicamente a ele se retribui como pagamento por sua força intelectual de trabalho.

Mas em que termos, afinal, um professor poderia cometer negligência que, respeitada a sua natureza, resultasse em consequências tão trágicas quanto aquelas provocadas por um erro médico? Para começar, levemos em conta que, via de regra, um profissional do magistério que atua nas quatro últimas séries do ensino fundamental assume dez turmas semanais em quarenta horas de trabalho. Isso representa ter sob sua responsabilidade uma média de 450 mentes. Por si só, isso já diz muita coisa, afinal, as atividades do professor têm como alvo principal o aprimoramento da formação intelectual de seus alunos, o que, necessariamente, passa por longos anos de efetiva convivência no espaço de sala de aula que se traduzem nas mais diferentes formas de interação: socialização de conhecimentos, análise dos mais diferentes conceitos, discussão sobre os mais diversos temas transversais etc. Tudo isso com a particularidade de que o lugar social de onde fala o professor é referência de extrema credibilidade, pois ele é indiscutivelmente consagrado como detentor de mais conhecimento, mais experiência, mais sabedoria. Com esse respaldo, o seu discurso é sempre portador das maiores verdades. Em outras palavras, quer tenha ou não plena consciência disso, o professor constrói com seus discípulos uma relação pedagógica de poder marcada pela ascendência de sua formação ideológica. Isso não parece desprezível para a lógica que estamos construindo aqui.

Suponhamos, agora, como protagonista dessa situação, um professor mal preparado, com uma formação pedagógica capenga, reacionária e preconceituosa; que faça dos limites do livro didático os limites do seu conhecimento e que despreze as mais elementares práticas cidadãs. Será difícil imaginar as repercussões, em longo prazo, na formação dos alunos?

Moral da história: a função social de um professor é tão importante quanto a de um médico. Excetuados os casos de negligência, este cuida da saúde e salva vidas, aquele partilha conhecimentos e forma cidadãos. Entretanto, para o tamanho da mesma responsabilidade, o que se paga a um médico por oito horas de trabalho é um salário extremamente distante daquilo que se paga a um professor, o que é bastante trágico.

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