O MEMORIALISTA MARCELO RUBENS PAIVA

O MEMORIALISTA MARCELO RUBENS PAIVA

       O ritmo e o envolvimento com a leitura costumam ser determinados pelo tipo de material que nos cai em mãos. Há livros, por exemplo, que se leem com toda calma do mundo. Assim como há livros que se leem com sofreguidão, ansiedade e pressa de se chegar à última página. Tanto no primeiro quanto no segundo caso, nem sempre significa dizer que sejam livros chatos ou desinteressantes dos quais queremos nos livrar. É da natureza dos livros balizarem uma ou outra forma de interlocução com o sentimento do leitor.

       Da interminável fila de leituras que se avolumam na estante e nas entranhas do meu Kindle, acabei me decidindo pelo e-book, e a bola da vez foi “Ainda estou aqui”, de Marcelo Rubens Paiva,  lançado ano passado pelo selo Alfaguara da Editora Objetiva. Não deu outra. A partir do segundo capítulo, já havia sido fisgado pelo texto e pela vontade de chegar sempre à página seguinte. Em linguagem simples, carregada de lirismo, mas sem cair em momento algum na tentação da pieguice e da autocomiseração, Marcelo Rubens Paiva vai tecendo as malhas da memória para compartilhar com o leitor o que, dramática e paradoxalmente, é o de que menos gostaria de falar: da última das tantas e bravas batalhas enfrentadas por sua mãe, Eunice Paiva, dessa vez contra um inimigo silencioso e implacável, o Alzheimer. Mas é esse enfrentamento que lhe possibilita descobrir que sua mãe não foi uma só. Foi várias. “Existiram algumas que não se contrapunham, completavam-se, não se contradiziam, somavam-se, reconstruíam-se da tragédia, alimentavam-se dela para renascer”. E é justo dessa descoberta que renasce uma outra forma de relação e admiração pela mãe, capaz de desvelar sentimentos maternos até então pouco compreendidos: “Nunca dancei com minha mãe. Nunca a abracei de verdade. Nunca rolei com ela fazendo cócegas. Nunca gargalhamos juntos”.

       Mas o tema, de abordagem dolorosa, como não poderia deixar de ser, funciona como guia de memória para o escritor resgatar, com invejável exatidão de detalhes, um dos períodos recentes mais trágicos da história política do Brasil, o golpe civil-militar de 1964. Foi no âmbito desse regime de autoritarismo e truculência que seu pai, deputado Rubens Paiva, foi cassado, exilado e, em 1971, assassinado nos porões da ditadura, depois de 24 horas de ininterruptas sessões de tortura, e o corpo nunca foi encontrado.

       Nas teias de suas memórias, Marcelo Rubens Paiva une então vários pontos. As lembranças da convivência com os pais, irmãos, parentes e amigos; a luta incansável de sua mãe para trazer à luz as verdades sobre a morte do marido, sempre escamoteadas por seus algozes e pelo Estado; a determinação de Eunice Paiva para renascer da tragédia, reinventar sua vida e continuar sua luta; o diagnóstico doloroso de que a memória de sua mãe estava perdendo terreno para o Alzheimer: “Não é possível, minha mãe tem uma demência? Depois de tudo o que passou? Justamente agora, quando ia curtir a velhice com dignidade, independência, conforto, situação financeira estável (…) Como Deus pode ser tão imprudente e imputar tanto sofrimento a uma pessoa só? Essa doença não era para acontecer, não tinha que acontecer, não nela! Por que provação mais a minha família devia passar? Por que nos testavam até o limite? Chega! Queríamos um descanso.”

       “Ainda estou aqui” é daqueles livros que se leem com sofreguidão e pressa para se chegar à última página, mas é também daqueles livros cuja leitura da última página remete o leitor à necessidade de voltar à página primeira e começar tudo de novo.

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