O MILAGRE DA GOL

O MILAGRE DA GOL

       Não, essa aí do título vou deixar para o final. Considero a melhor de suas tantas aventuras cruzando os céus país afora em prol da nobre causa da ciência. Deixem-me apresentá-lo. Refiro-me ao bom amigo Mário Neto, mineiro que saltou para a vida neste mundo, vasto mundo, em Sacramento, no Triângulo Mineiro. Da infância, em sua terra natal, não esconde o orgulho do caudaloso rio onde aprendeu a nadar. Quase cinco metros de largura! Pra onde vai, não abre mão de sua poderosa virtude traduzida em um bom humor do tamanho das alterosas. Talvez por isso mesmo transforme as adversidades de suas andanças em histórias que provocam intermináveis risadas e ficam célebres entre os amigos.

       Conta aquela da primeira classe, Mário! Esteve em Manaus para discutir um compromisso de trabalho. Missão cumprida e várias providências geladas depois, levei-o ao aeroporto. Não tardou muito chegou a mensagem pelo celular. Cliente fidelidade, havia conseguido fazer upgrade e, orgulhoso, estrearia a primeira classe num voo até São Paulo, onde faria conexão para BH. Parabenizei-o pelo grandioso feito. Do resto, viemos saber depois. A partida sofrera enorme atraso e a conexão em Guarulhos fora comprometida. No balcão da empresa, vendia seus argumentos de que precisava chegar ao destino ainda naquela noite. Lamento, senhor, não há tempo de transferir sua bagagem para a outra aeronave. Daremos todo apoio. A empresa o acomodará em um hotel e o senhor seguirá num próximo voo. Tá bom. Então quero minha mala. Quarenta e seis minutos de espera. Sinto muito, senhor, mas sua mala já seguiu pra Belo Horizonte. E agora, como fico? Sem escova, pasta de dente, cuecas e, o pior, meus remédios, inclusive o da pressão. Surge do nada uma delicada atendente. O senhor deveria carregar seus remédios consigo! Mário pôs os pingos nos iis. Olhe, minha senhora, eu carrego meus remédios onde eu quiser, não é a senhora quem vai determinar como eu devo fazer! E não se meta na conversa! Resumo: a bagagem ficou horas e horas desfilando na esteira de Confins e Mário chegou ao seu destino vinte e duas horas depois.

       Mas essa outra história é impagável. Sua dificuldade de locomoção o impede de longas caminhadas. Nos aeroportos solicita sempre cadeira de rodas. No aprazível aeroporto de Brasília, o diligente funcionário estacionou a viatura a uns cinco metros do portão por onde se daria o embarque e fez a óbvia recomendação. O senhor aguarda aqui. Na hora do embarque, virei buscá-lo. E sumiu no meio da multidão. Já aflito e prestes a perder o voo, as gasguitas caixas de som propagam: “Passageiro Mário Neto, última chamada do voo para Belo Horizonte”. Sem alternativa, empunhou a muleta que o auxilia em curtas caminhadas, levantou-se e dirigiu-se ao portão. Não deu outra. Isso contado pelo próprio. Uma voz carregada de fé ecoou na multidão. Milagre! Milagre! Milagre da Gol! Em seguida, outra voz, dessa vez contida e maldosa, arrematou. Vigarista! Passando por cadeirante pra ter atendimento preferencial… Bom mineiro que é, Mário perdeu o contraponto, mas não perdeu o trem.

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