O MUNDO AZUL DE MARGUERITE YOURCENAR

O MUNDO AZUL DE MARGUERITE YOURCENAR

       Conheci um pedacinho da obra de Marguerite Yourcenar em meados da década de setenta. Fazia o quarto período do curso de Letras na Universidade Federal do Amazonas, quando me chegou, pelas mãos dos Correios, primorosa edição de “Memórias de Adriano”. Eram os tempos do Círculo do Livro, do qual eu era sócio abnegado, o que me dava direito a receber uma obra por mês. Lembro-me bem de que, em pouco tempo, saltei do deslumbre do rito inicial de recepção do livro para o encantamento da densa e provocante prosa literária de Yourcenar. Como foi gratificante e prazeroso viajar nas memórias de Adriano, o mais culto e intelectual, o mais grego dos imperadores romanos.

       Por que estou me reportando a “Memórias de Adriano” ? Velho hábito que cultivo até hoje, vez ou outra me imponho o pretexto de arrumar os livros nas estantes para, no fundo, reencontrar e trocar prosa com velhas leituras, algumas das quais já esquecidas em algum cantinho da memória. Assim como um arqueólogo que sabe que seu tesouro está em segurança, mas faz questão de revisitá-lo, sempre que possível, pelo puro prazer do reencontro. Pois não é que, numa dessas últimas empreitadas, deparei-me com um livrinho, quase de bolso, editado em 1993 pela Editora Nova Fronteira, perdido em meio a volumes maiores e inédito para mim! Lá estava “Conto azul e outros contos”, com suas pacientes e poucas páginas aguardando, sabe lá há quanto tempo, para ser resgatado e devorado. Provável fruto de um acidente de percurso, comum em tantas mudanças de casa, aquele foi um feliz reencontro e, ao mesmo tempo, uma redescoberta de Marguerite Yourcenar.

     No conto que dá título ao livro, Marguerite narra com leveza a viagem de um grupo de mercadores europeus à caverna das safiras, em busca de saciar sua ambição pelo poder e pela riqueza. Nos diversos embates entre as tragédias que marcam a viagem e seus conflitos pessoais, a lição de vida: o menor apego a bens materiais e a identificação com a simplicidade da vida selam a vitória do único mercador que se salvará da empreitada. Mas toda essa trama ganha especial realce com a sensibilidade e criatividade de Yourcenar, que tinge toda a realidade da narrativa com a cor azul, nos moldes em que o diretor polonês Krysztof Kieslovski, décadas depois, brindou o cinema com a trilogia das cores, retratando os ideais da Revolução Francesa representados pela igualdade, liberdade e fraternidade, com destaque para “A liberdade é azul”. Se conseguirem localizar em algum canto de estante, em alguma biblioteca perdida ou na memória de alguma edição virtual, embarquem com prazer nesse mundo azul de Marguerite Yourcenar.

Share on Facebook0Tweet about this on TwitterShare on Google+0Pin on Pinterest0Email this to someonePrint this page