O MUNDO FRATURADO DO CINEMA

O MUNDO FRATURADO DO CINEMA

(Para o Aurélio Michiles, que tem paixão pelo cinema)

Gosto de cinema, mas já não gosto de ir ao cinema. Acho até que já falei sobre isso ou coisa parecida. Não, nem pensar que assim tenha sido desde sempre. Minha infância e juventude foram vividas dentro de um cinema. E sempre que tenho oportunidade falo ou escrevo a respeito deste sempre lembrado período da vida em que a magia do cinema me fazia romper qualquer barreira entre o sonho e a vida que eu menino vivia no meu bairro de São Raimundo.

Não, também, que minha paixão pelo cinema tenha parado no tempo. Criei meu próprio Cinema Paradiso em casa. Com tela que mata minha saudade do velho cine Ideal e um razoável acervo em DVD que venho construindo há anos, sobretudo na condição de um incorrigível caçador de promoções. O que não gosto mais, repito, é de ir ao cinema. E penso que tenho minhas razões.

Pode haver situação mais incômoda, com o início da projeção, do que a desconcertante orquestra promovida pelo barulho das embalagens de papel e pelo seu vizinho ao lado, triturando impiedosamente o milho de pipoca na boca? Pode haver coisa mais inconveniente do que a alternância dos diferentes toques de celulares a bom perturbar o seu juízo? Mais que isso, que obrigação você tem de aturar a breguece ou breguice do infeliz que resolve atender ao celular e discutir, em alto e bom tom, os encontros e desencontros de sua vida amorosa? Isso sem contar com aqueles outros com pendor para cineastas da pirataria, que comprometem sua atenção com o visor dos celulares ou das câmeras. Nada contra a paixão desenfreada e os beijos ‘calientes’ à moda saca-rolha, desde que aconteçam, convenhamos, em outro lugar e não causem constrangimento a quem investiu num ingresso bastante caro para tirar proveito de outras cenas. Pergunto eu o que pode haver de mais explícita e descarada invasão territorial do que o tosco esparramado na poltrona, logo atrás, não satisfeito com a parte que lhe cabe naquele latifúndio, esticar as pernas sobre a poltrona da frente e achar absolutamente natural você ter o dever de suportar o odor das suas botinas vencidas? Não, assim não dá!

Mesmo não sendo herdeiro de nenhuma linhagem nobre na minha árvore genealógica, decididamente me recurso a compactuar com o que, para um velho amigo, é a maior evidência da estupidez, da ignorância, de um mundo inculto e fraturado. No meu tempo, o escurinho do cinema era um lugar sagrado.

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