O OLHAR CERTEIRO DE BERTHA BECKER

O OLHAR CERTEIRO DE BERTHA BECKER

BERTHA BECKER

       Sabia que voltaria àquele texto. Já se passara mais de um mês do meu encontro com ele. E lá estava no canto direito da mesa me instigando para um reencontro. É sempre assim, quando algum lance de uma leitura fica azucrinando minha cabeça. Quer seja por se ajustar às minhas expectativas quer seja por contrariá-las. Nesse caso particular, a razão foi a primeira.

       Impressionam a sensibilidade e o pragmatismo com que Bertha Becker vislumbrava o desenvolvimento da Amazônia sem o falso purismo dos que, vivendo no conforto das grandes metrópoles, advogam a preservação usando a ferramenta do santuário e da intocabilidade, como se essa parte do país fosse habitada por mais de 20 milhões de anjos que dispensassem bens materiais, qualidade de vida e pleno direito à felicidade. Por essas e outras me vi compelido a reler a entrevista concedida pela geógrafa a Maurício Barros de Castro, da National Geographic Brasil, e dela compartilhar dois pontos por mim considerados fundamentais para qualquer debate sobre a região, tão cobiçada por outros, mas peremptoriamente desprezada pelos brasileiros.

       Vejo, por exemplo, como um tom forte e mobilizador o princípio traçado por Bertha para sustentar o peso de seus argumentos: “A Amazônia não pode mais ser vista como o almoxarifado de recursos naturais de outras regiões do Brasil”. Acerta na mosca! O que se tem visto ao longo da história, senão o odioso hábito de se extraírem matérias-primas brutas da região, sem nenhuma agregação de valor, as quais são enviadas para fora e, quando muito, ironicamente devolvidas sob a forma de produtos finos e sofisticados que nos custam os olhos da cara? Essa prática perversa sempre gerou um círculo vicioso no qual, de um lado, expropriam-se nossas riquezas e, de outro, impede-se a construção de cadeias produtivas completas e organizadas que possam gerar emprego, renda e bens materiais que sustentem a felicidade das populações que aqui vivem. É muito cômodo para a indústria lá fora arrotar marketing e fama de sustentabilidade em cima da marca Amazônia sem, entretanto, assumir seu papel de geradora de riqueza na própria região.

       Outro aspecto a fortalecer o discurso de Bertha em prol da economia como mecanismo fundamental para preservar a Amazônia é entender que a região tem características próprias de sofisticação e, como tal, deve ser tratada com sofisticação. Qual o significado disso? Não se pode preservar sem se conhecer; não se pode tirar proveito econômico e social das incontáveis riquezas da rica biodiversidade amazônica sem se gerar novos saberes sobre ela. E aí entra a defesa intransigente da geógrafa de que, nesse caso, o modelo de desenvolvimento da Amazônia passa, necessariamente, por um percurso “em que ciência e tecnologia definam modos adequados de uso, sem destruição, com distribuição equitativa da riqueza gerada no próprio local”.

       Como bem se pode ver, aquilo que Bertha enxergava com tamanha clareza continua sendo um ponto cego para o restante do Brasil e seus sucessivos governantes. Eles teimam em negligenciar a região e em não saber o que querem da Amazônia. Apenas lamentável, se não fosse trágico.

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