O PODER PARALELO QUE ENVENENA O BRASIL

O PODER PARALELO QUE ENVENENA O BRASIL

       Há dois momentos no livro de Paulo Henrique Amorim (O quarto poder) que, ao meu ver, resumem e revelam, de forma fria, calculista e perversa, a dimensão do papel da família Marinho e seu conglomerado de comunicação na vida do País e dos brasileiros. O primeiro, atribuído ao falecido Roberto Marinho, diz respeito à crença transformada em dogma inabalável de que “o importante não é o que você publica, mas o que não publica”. Do ponto de vista discursivo, o fundamental no jogo não é o que você diz, mas aquilo que, por conveniência, deixa de dizer. Ora, dá pra ter ideia da enormidade do alcance de tal princípio na formação ideológica de milhões de pessoas, quando se detém, como é o caso das Organizações Globo, só no Rio de Janeiro, o controle de dois jornais, uma empresa de revistas, uma editora de livros, emissora de rádio, rede de televisão aberta, televisão por assinatura e portais na internet? Agora imagine toda essa estrutura obsequiosamente replicada pelo Brasil afora, nos mais distantes e inimagináveis pedaços desse imenso Pais! Imagine, ainda, seguindo à risca o princípio ignominioso dos Marinhos, o incalculável tamanho do poder de manipulação dessa abominável estrutura, a inculcar as regras para o estado de espírito de milhões e milhões de criaturas, a ditar-lhes “o que é a verdade” e “o que não é a verdade”! É trágico ou não é? Como bem lembra Paulo Henrique Amorim, “concentração de poder como esse só existiu, com tamanha impunidade, na época da União Soviética”.

       O segundo momento da leitura que me saltou aos olhos está num outro princípio da lavra de Roberto Marinho, derivado do primeiro, segundo o qual “não quero preto nem desdentado no Jornal Nacional”. Ou seja, sempre que necessário, para ele era fundamental que se fabricasse, ao vivo e em cores, uma realidade devidamente expurgada de negros e pobres, não importando a outra gritante realidade espalhada, inclusive bem próxima, nos morros do Rio de Janeiro. Coincidentemente, Paulo Henrique lembra que o general Emílio Garrastazu Médici, talvez o mais sanguinário dos ditadores, sentia júbilo dessa “realidade” fabricada pela Globo: “Sinto-me feliz todas as noites quando assisto ao noticiário. Porque, no noticiário da TV Globo, o mundo está um caos, mas o Brasil está em paz”. Era a paz dos cemitérios de que falava o então arcebispo de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns.

       Mas esses dois momentos acima destacados representam, na verdade, apenas a pontinha do iceberg de todo um sem número de revelações escabrosas, de audaciosas cenas de desfaçatez, de achaques, de negociatas para tirar proveito da coisa pública, de retaliações, de manipulações para fraudar a vontade dos eleitores e de tenebrosas transações que davam aos Marinhos a inacreditável prerrogativa de, em muitos casos, governar mais que o próprio presidente da República. Nesse patamar é que, sem nunca abrir mão de seu poder maior, os Marinhos se irmanam aos Mesquitas, aos Frias, aos Civitas e outros irmãos menores e formam o que Paulo Henrique definiu com precisão como sendo o PiG – o hoje famoso Partido da Imprensa Golpista. Viajar, portanto, nas páginas de O quarto poder, embalado por um texto com frases curtas e envolventes, é, sobretudo para os mais novos que não trazem a História na palma da mão, ter a pedagógica chance de se indignar com o passado e entender, com toda a perfeição de detalhes, o papel deletério, envenenador e golpista que essa mídia sempre exerceu e tenta exercer hoje na vida política brasileira.

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