O PREÇO DA MODERNIDADE

O PREÇO DA MODERNIDADE

Foi-se o tempo em que havia um divisor de águas entre o expediente de trabalho e o período de descanso. No tempo de eu menino, lá em São Raimundo, a fronteira entre trabalho e ócio era sinalizada pelo apito meio engasgado que escapava da chaminé da serraria Rodolfo, do outro lado do igarapé, e invadia todos os lares e ouvidos do bairro. Os toques aconteciam infalivelmente às 7, 11, 13 e 17 horas e tinham um poder tão forte e autoritário, que as máquinas eram desligadas no meio de uma operação de corte de uma tora de madeira. A vida dos operários e, por consequência, a nossa eram reguladas e disciplinadas por aqueles apitos. O das 11 horas, por exemplo, indicava pra nós, crianças, que o almoço estava posto. Não importava onde estivéssemos, na rua ou em casa de amigos. Saíamos em desabalada carreira pra ocupar lugar em um dos lados daquela comprida mesa na cozinha, porque mãe já aguardava pra nos servir um a um, como mandava o ritual. Hoje, com a modernidade e os avanços tecnológicos, as fronteiras entre trabalho e repouso perderam-se no tempo. Querem ver? Chegar ao final do dia em casa não significa mais afazeres encerrados. O terceiro turno tornou-se obrigatório. Afinal, é preciso acessar a caixa de imeios (este meu computador insiste em me convencer de que são e-mails!), apagar os inconvenientes, ler e responder as mensagens pessoais e (por que não?) algumas do trabalho. Aproveitando a carona, é importante consultar alguns portais de notícias e se manter atualizado com os acontecimentos, sem descuidar dos portais de vendas pela internet, pra não perder alguma promoção. Não dá pra se descuidar das músicas. Há que se organizá-las em pastas com rigorosa classificação. Isso exige tempo. Se elas se acumulam desordenadamente, o quadro fica caótico. Como lidar com 10, 15, 20 mil músicas na hora da escolha? É preciso, também, manter o iPod, o iPhone e o iPad sempre sincronizados e estar atento aos novos aplicativos disponibilizados nas lojas virtuais. Já que o computador está ligado mesmo, não custa acessar a conta no Tuíter, ler algumas mensagens e postar tantas outras para os seguidores, além de responder algumas em mensagens diretas. Tuiteiro que se preza não passa sequer um dia sem dar sinal de vida! Como se não bastasse, os filmes em DVD comprados nos últimos meses estão acumulados na estante. É necessário classificá-los por título, gênero, diretor e atores principais, caso contrário, na hora de querer rever algum não há como localizá-lo. Vencido pelo cansaço, o ponteiro se aproxima da meia-noite e eu me recolho para o sono dos exaustos. Mas não sem antes, já deitado e coberto pelo lençol, dar uma última tuitada.

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