O IMPÉRIO DE GÉRSON

O IMPÉRIO DE GÉRSON

Cena 1. Interior de um banco. Longa fila. Sofrida espera para chegar à boca do caixa. Duros quarenta minutos. O ar condicionado não dá conta. O clima torna-se pesado e a respiração ofegante. Ouve-se o ruído dos abanos improvisados com boletos bancários de água, luz, telefone. Do outro lado, separado por sua redoma de vidro e alheio ao burburinho, o caixa opera sem pressa e mecanicamente seus gestos. No canto, à esquerda, um segurança de peito empinado acompanha impassível aquela movimentação. De repente, parecendo estar ali por puro capricho, surge a figura clássica. Desinibida, cumprimenta todos na fila, como se fossem seus velhos conhecidos. O segurança recebe uma saudação especial. É merecedor de um breve e alegre papo, além de tapinhas nas costas. Num passe de mágica e com absoluta naturalidade, a figura já está na boca do caixa sendo atendida. Repete o ritual de sorrisos e cumprimentos até sumir por trás da porta giratória. O que para outros demorou média de quarenta minutos, para ela resumiu-se a três. Continue lendo

O MUNDO AZUL DE MARGUERITE YOURCENAR

O MUNDO AZUL DE MARGUERITE YOURCENAR

       Conheci um pedacinho da obra de Marguerite Yourcenar em meados da década de setenta. Fazia o quarto período do curso de Letras na Universidade Federal do Amazonas, quando me chegou, pelas mãos dos Correios, primorosa edição de “Memórias de Adriano”. Eram os tempos do Círculo do Livro, do qual eu era sócio abnegado, o que me dava direito a receber uma obra por mês. Lembro-me bem de que, em pouco tempo, saltei do deslumbre do rito inicial de recepção do livro para o encantamento da densa e provocante prosa literária de Yourcenar. Como foi gratificante e prazeroso viajar nas memórias de Adriano, o mais culto e intelectual, o mais grego dos imperadores romanos. Continue lendo

ENCONTRO MARCADO

ENCONTRO MARCADO

       Todo livro é motivado, em sua origem, por inquietação e desejo de mudança. MAZELAS DO LIVRO DIDÁTICO representa, neste sentido, o sentimento de que os livros didáticos, e aqui em particular os de língua portuguesa, precisam ser urgentemente reinventados, a fim de assumirem o seu verdadeiro papel como mediadores no processo de ensino-aprendizagem. O contrário disso, e o que vigora em abundância pelas salas de aula Brasil afora, continua sendo o uso desse objeto como uma espécie de fetiche, que se sustenta como um fim em si mesmo e se transforma num perigoso instrumento de imbecilização dos aprendizes. Esse o ponto central das reflexões que proponho aos colegas professores e estudantes.
MAZELAS DO LIVRO DIDÁTICO terá um primeiro encontro com o público na próxima sexta-feira, às 18h30, no âmbito da Semana de Letras da UEA, na Escola Normal Superior. Todos estão convidados e ficarei muito feliz com a presença de todos. O encontro está marcado.

MAGISTÉRIO E DESILUSÃO

MAGISTÉRIO E DESILUSÃO

Já se vão alguns anos. Nunca a tinha visto naquele estado. A expressão emoldurada por um profundo desalento propagava uma tristeza de causar inveja ao mais pessimista dos mortais. Os ombros caídos refletiam a derrota de quem acabara de perder uma batalha decisiva. A voz, antes firme e habituada a articular com cadência as palavras, agora se mostrava hesitante e carente de entusiasmo. A segurança e convicção na defesa de suas utopias e princípios pedagógicos haviam cedido lugar à mudez, própria de quem entrega as armas e recolhe-se ao silêncio do conformismo. Diante da insistência de minha voz, que nada dizia, mas cobrava um desenlace para aquela situação, resolveu, num extremo poder de síntese, cantar a pedra: “Pedi exoneração”. Continue lendo

UMA NOVA CRIA GANHA VIDA

UMA NOVA CRIA GANHA VIDA

       Recebi-a das mãos da amiga querida Neiza Teixeira hoje à tarde na Editora Valer. Chama-se MAZELAS DO LIVRO DIDÁTICO. E o primeiro encontro foi, como os anteriores, recheado de muita emoção. É como uma criança que se coloca no aconchego do colo e se cobre de carinho e afeto, na certeza de que, com o passar do tempo, ganhará outros mundos, outras convivências e terá vida própria, afinal, pra isso saltou para a vida. Minha gratidão ao sempre e querido aluno Tenório Telles, que embala essa criança com um afetuoso texto de apresentação. Minha gratidão ao Isaac Maciel, editor da obra, por acreditar em seu sucesso.
No próximo dia 13, às 18h30, na Escola Normal Superior da UEA, MAZELAS DO LIVRO DIDÁTICO terá seu primeiro encontro com o público. Outros acontecerão. Para isso, eu me sentirei extremamente feliz e gratificado com a presença das amigas e amigos, professoras, professores e ex-alunas e alunos. Todos estão convidados.

UM POBRE NA PRIMEIRA CLASSE

UM POBRE NA PRIMEIRA CLASSE

       Deu-se há muito tempo. Vivíamos os derradeiros suspiros da nossa saudosa Varig. E me dou conta, aqui e agora, do quanto é curioso esse tratamento especial dispensado a uma marca, a demonstrar que mantínhamos com ela uma relação com fortes laços familiares, como se fosse algo próximo, íntimo, amigo. Penso até ser lícito falar da geração Varig. Não, não vejo nada de simplório nisso! Acho legítimo esse saudosismo. Afinal, dessa geração, quem não carrega ainda vivíssimas num cantinho da memória as boas lembranças daquela sequência com que o harmonioso vocal encerrava as peças publicitárias no rádio e na televisão: Varig… Varig… Varig… E na programação de domingo à noite, na rádio Rio Mar, quando a Varig era “dona da noite”, com uma impecável programação musical? E aquela musiquinha da época do Natal, que sempre teima em reverberar até hoje em nossa cabeça? “Estrela brasileira no céu azul, iluminando de Norte a Sul…” Continue lendo

CRIME SEM CASTIGO

CRIME SEM CASTIGO

       Num desses dias, o Conselho Nacional do Ministério Público decidiu, por 12 votos a 2, demitir um procurador da República de nome Douglas Kirschner. A razão? Ele foi acusado de ter espancado a ex-mulher e tê-la mantido em cárcere privado. A notícia correu as redes sociais. No dia seguinte, o jornal O Globo estampou a seguinte manchete: “Conselho do MP determina demissão do procurador que investiga Lula”. Se fosse um caso isolado de flagrante tentativa de manipulação da verdade, teria passado despercebido. Acontece, porém, que o episódio é representativo do comportamento cotidiano da chamada grande mídia brasileira, na busca frenética da defesa de seus interesses políticos, empresariais e de classe. No afã de se imiscuir nos rumos políticos do País, os donos das redações mutilam o compromisso social com a informação e passam a assumir um papel que caberia aos partidos políticos. Continue lendo

PARA SEU MAIOR CONFORTO

PARA SEU MAIOR CONFORTO

       Quem não passou pela situação em que, durante uma conversa amena ou, principalmente, num contexto de desentendimento, uma das pessoas, para se defender de acusação injusta, precisa dizer à outra: “Não coloque palavras suas em minha boca!”. Se, nessas circunstâncias, o expediente torna-se perceptível, em muitas e muitas outras ele funciona como uma poderosa arma ideológica e traduz uma das mais bem elaboradas e sibilinas artimanhas do discurso. Os funcionários das empresas aéreas são bastante treinados nessa pródiga estratégia de transferir aos passageiros – ou “clientes” – responsabilidades, transtornos, iniciativas ou decisões que rigorosamente não lhes cabem. Continue lendo

DISCURSO DE CRIANÇA

DISCURSO DE CRIANÇA

       Chegou pra mim com expressão circunspecta de quem carrega sobre os ombros o peso de uma grande dúvida, calculando, naturalmente, o tempo de intervalo entre um episódio e outro de seu desenho preferido. Fixou-me um profundo olhar e, do alto da experiência de seus seis anos de idade, cravou a pergunta. Quarenta e sete reais é muito dinheiro? Pego de surpresa, gaguejei um pouco, mas me contive para não indagar sobre as razões daquela inusitada demanda, o que poderia ser tomado por ele como provocação. Respondi que sim, quarenta e sete reais eram bastante dinheiro. Continue lendo

LITERATURA DE AEROPORTO

LITERATURA DE AEROPORTO

       Quase certeza de que meu amigo e professor Gabriel Albuquerque não admitiria. Eu mesmo hesitei muito ao atribuir o título acima, nessa minha insuperável mania de começar sempre por ele como pretexto em busca da tal inspiração. Até o final do texto, embora essa não seja historicamente a regra, penso em outro nome mais adequado. Mas o fato é que, seja literatura ou outra coisa qualquer, há certo gênero de produção escrita que frequenta com prioridade as prateleiras dos aeroportos. Num desses não tão raros dias de chá de cadeira, sentei-me diante de uma vitrine no velho e cansado Eduardo Gomes de guerra e me pus a fazer um inventário dessas raridades. Continue lendo