O IMPÉRIO CONTINUA ATACANDO

O IMPÉRIO CONTINUA ATACANDO

       Tudo indica que eu me passei mesmo pra era do livro digital. Li de cabo a rabo, com enorme sofreguidão, em minha telinha do Kobo, o recente livro de Fernando Moraes. Claro, aproveitei uma pontinha do ócio criativo. Mas o fato é que há muito não devorava um livro em tão pouco tempo. Duas razões contribuíram: o fator novidadeiro que a tecnologia do livro digital pôs em minhas mãos e, sobretudo, o envolvimento e a cumplicidade de leitor que “Os últimos soldados da Guerra Fria” arrancaram de mim, fruto da enorme habilidade de Moraes em transformar História em Literatura sem perder de vista a fidelidade aos fatos. Continue lendo

O PODER PARALELO QUE ENVENENA O BRASIL

O PODER PARALELO QUE ENVENENA O BRASIL

       Há dois momentos no livro de Paulo Henrique Amorim (O quarto poder) que, ao meu ver, resumem e revelam, de forma fria, calculista e perversa, a dimensão do papel da família Marinho e seu conglomerado de comunicação na vida do País e dos brasileiros. O primeiro, atribuído ao falecido Roberto Marinho, diz respeito à crença transformada em dogma inabalável de que “o importante não é o que você publica, mas o que não publica”. Do ponto de vista discursivo, o fundamental no jogo não é o que você diz, mas aquilo que, por conveniência, deixa de dizer. Continue lendo

O MAL DO SÉCULO

O MAL DO SÉCULO

A ciência moderna encontra-se diante de um novo desafio: revelar as causas dessa epidemia, desse novo mal do século. Outro dia, num voo prestes a pousar, a partir daquele momento em que o comandante anuncia “já iniciamos o nosso procedimento de descida”, notei, no extremo oposto da fileira, um jovem aparentando entre dezoito e vinte anos. Começou a ensaiar estranhos sinais de inquietação. Alisava os cabelos com frequência. Batia com lentidão a testa na poltrona à sua frente. Olhava com intermitência para o relógio. Continue lendo

CINEMA À ANTIGA

CINEMA À ANTIGA

Desde há muito, tornou-se uma raridade eu sair de casa para ir a uma sala de cinema. Diga-se de passagem, entretanto, que isso nada tem a ver com o meu fascínio pela chamada sétima arte, iniciado na minha infância intensa e saudavelmente vivida no já antigo bairro de São Raimundo. Trata-se de outra história.

Dia desses, ao ligar o televisor num desses canais que exibem os chamados filmes clássicos, deparei-me com um fragmento de cena em preto e branco que mostrava os personagens, no meio de uma verdadeira multidão, dirigindo-se a um cinema. Continue lendo

CARTA À SÍNDICA

CARTA À SÍNDICA

Já foi há algum tempo, na residência anterior. Deu-se que eu havia chegado ao limite. Até então, endereçara as reclamações a mim mesmo, criando um círculo vicioso e sem consequências práticas. Era preciso sair disso. Juntar as palavras à ação. A primeira iniciativa foi lançar mão do telefone convencional. Pensei depois que isso não satisfaria o grau de minha irritação. Ensaiei o uso dessa maquininha da moda chamada celular. Não seria em nada diferente da primeira alternativa. Por que não manifestar pessoalmente minha indignação? Continue lendo

DEUS QUE DELÍRIO!

DEUS QUE DELÍRIO!

       No geral, livros que discutem a existência ou não de Deus são chatos, porque sempre dogmáticos, tanto na primeira quanto na segunda tese. Afirmar, entretanto, que “crentes e ateus diferenciam-se porque, de um lado, aprovam; de outro, reprovam”; e “assemelham-se porque nenhum deles nunca encontrou meios de provar o que afirma”, apesar de tantas tentativas, abre uma perspectiva bem interessante para a discussão, uma vez que se ampara na pluralidade. Daí meu sentimento de leitor ter adorado a experiência de atravessar, sempre com grande expectativa, as páginas do livro de Peter Sparks, chamado “Deus, que delírio!!!”. Revi dois momentos de minha vida. Um primeiro, na juventude, em que não tinha dúvida da existência de Deus, e um segundo, já nos últimos anos da graduação, quando desconstruí a crença, o que não me impede de alimentar o delírio pela curiosidade e pelas provocações. Aliás, ponto alto da viagem de Sparks as provocações, algumas das quais põem o bom ateu em xeque, mas não mate: “…quando nega a existência de Deus, tem de trazer em sua mente uma ideia de Deus”. É ou não é uma certeira provocação? Mas a maior de todas elas está, sem dúvida, na geração do conformismo (e aqui a qualificação é minha, não de Peter Sparks) posto na tese de que “Deus só é Deus, de verdade, se for impensável”. E é exatamente pela impossibilidade de compreendê-lo que continuo ateu. Graças a Deus. O livro tá recomendado.

PODER E IMPUNIDADE

PODER E IMPUNIDADE

       Chegar à última página de “Operação banqueiro”, do jornalista Rubens Valente, publicado pela Geração Editorial, é saltar para um mundo surreal e ver-se acometido por um estado de espanto e de extrema frustração. Não com a obra, extraordinário trabalho de jornalismo investigativo, mas com os fatos estarrecedores nela revelados, a comprovar que, no Brasil, o crime continua tendo suas compensações. O banqueiro Daniel Dantas, por exemplo, principal protagonista das páginas de Valente, “conseguiu no STF dois habeas corpus sucessivos num intervalo de poucos dias, Continue lendo

A REVOLUÇÃO ESTÁ NAS REDES

A REVOLUÇÃO ESTÁ NAS REDES

É cedo pra análises conclusivas. Mas é indiscutível. As manifestações mundo afora, que tiveram nas Redes Sociais seu maior capital mobilizador, representam um fenômeno tão extraordinário quanto as grandes revoluções que marcaram, até então, o mundo moderno. É nessa perspectiva que o sociólogo espanhol Manuel Castells faz uma reconstituição crítica e histórica desses movimentos sociais em seu livro “Redes de indignação e esperança”, lançado no Brasil pela Zahar Editora. Da Tunísia, onde tudo começou, num movimento que o autor classifica de “a revolução da liberdade e da dignidade”, passa pela Islândia, onde os movimentos sociais ficaram conhecidos como “a revolução das panelas”, chega ao Egito patriarcal, onde teve destaque a inédita e corajosa participação das mulheres, sem deixar de focar o movimento dos indignados em seu país, a Espanha, e chegar às mobilizações que tomaram conta dos Estados Unidos com o “Occupy Wall Street”. Continue lendo

A NUDEZ DO PRÍNCIPE

A NUDEZ DO PRÍNCIPE

Na apresentação do livro de Palmério Dória, o jornalista e editor Luiz Fernando Emediato, depois de um breve raio-X da obra, faz uma pergunta intrigante: “onde estava, no reinado dos tucanos, o ministério público, o procurador geral da República, os Joaquim Barbosa daquele tempo?” E arremata: “O chamado “mensalão” – tenha existido ou não – parece coisa de amadores diante do profissionalismo de empresários, burocratas e políticos daquele tempo. Nenhuma CPI. Nenhuma investigação que chegasse ao fim. Nenhuma denúncia capaz de levar a um processo e a uma condenação!” Continue lendo

O MILAGRE DA GOL

O MILAGRE DA GOL

       Não, essa aí do título vou deixar para o final. Considero a melhor de suas tantas aventuras cruzando os céus país afora em prol da nobre causa da ciência. Deixem-me apresentá-lo. Refiro-me ao bom amigo Mário Neto, mineiro que saltou para a vida neste mundo, vasto mundo, em Sacramento, no Triângulo Mineiro. Da infância, em sua terra natal, não esconde o orgulho do caudaloso rio onde aprendeu a nadar. Quase cinco metros de largura! Pra onde vai, não abre mão de sua poderosa virtude traduzida em um bom humor do tamanho das alterosas. Talvez por isso mesmo transforme as adversidades de suas andanças em histórias que provocam intermináveis risadas e ficam célebres entre os amigos. Continue lendo