O EXTRAORDINÁRIO MUNDO DE CLARICE

O EXTRAORDINÁRIO MUNDO DE CLARICE

       As marcas de Clarice estão todas lá nos contos selecionados. A permanente inquietude em seu estilo particular de dizer, por exemplo. Sim, porque a escritura de Clarice causa um profundo desassossego no leitor, sempre às voltas com os desvãos profundos que ela deixa em cada palavra dita. Ou a profunda imersão na alma. Sim, porque a partir da exploração da alma de seus personagens, Clarice, mais do que sugere, obriga o leitor a mergulhar nos mais recônditos cantinhos de sua própria existência. Continue lendo

A MODERNIDADE QUE ASSUSTA

A MODERNIDADE QUE ASSUSTA

       No tempo de eu menino, os motoristas dos antigos ônibus com carroçaria de madeira eram conhecidos de todos nós. Tratávamos eles como velhos amigos, assim como se fossem da família. Tanto que, muitas vezes, a depender do nosso estado de espírito, não era incomum ficarmos pacientemente sentados no ponto aguardando o motorista de nossa preferência. À época, o tempo era bastante camarada, não nos cobrava pressa. Por que estou a me lembrar dessa saudosa desse tempo? É que li uma notícia, vinda da Holanda, dando conta de que entrou em fase experimental, em uma cidadezinha do interior chamada Wageningen, um ônibus elétrico que dispensa a presença e o comando de um motorista. Não que eu seja careta ou resistente à modernidade, mas, como diria minha mãe, que diabo é 10 que 9 não ganha? A cada avanço, a cada passo, as novas tecnologias mais nos distanciam das relações interpessoais e nos empurram as máquinas como interlocutores. E o pior é que a gente vai entrando nesse clima e em pouco tempo está batendo altos papos com as máquinas, numa espécie de esquizofrenia coletiva. Dia desses, eu me flagrei conversando com o Siri, o dispositivo do iPhone que permite que você lhe faça perguntas, tenha respostas de seu interesse e possa, ainda, pedir que execute certas tarefas. Afinal, que diabo de sociedade é essa que estamos construindo? É ou não é assustador?

BARBÁRIE E NEGLIGÊNCIA EM 3 ATOS

BARBÁRIE E NEGLIGÊNCIA EM 3 ATOS

       Vamos ao primeiro ato. A cena se passa num fim de tarde de segunda-feira. Avenida Pedro Teixeira, sentido centro-bairro. Trânsito pesado. À minha frente, uma caminhonete da Manaustrans. Impaciente, o motorista mudou de pista duas vezes. Pisca que é bom, neca. Ao uns cem metros do cruzamento, próximo ao La Salle, o endiabrado homem da lei não contou dúvida e surpreendeu de novo. Sem qualquer aviso prévio, percorreu alguns metros a pista à sua esquerda, na contramão, e estacionou tranquilamente na área do posto BR, frente à loja Espantalho. À distância, deu pra perceber sua paz de espírito na cabine do veículo, como se nada de extraordinário tivesse acontecido. Quem policia o policial que policia o trânsito? Continue lendo

ESTÓRIAS PARA SEREM LIDAS EM VOZ ALTA

ESTÓRIAS PARA SEREM LIDAS EM VOZ ALTA

       A geógrafa Bertha Becker era apaixonada pela Amazônia. Nada havia, entretanto, de platônico nessa paixão, porque, apesar de não ter nascido amazônida, ela conhecia como poucos esse pedaço do Brasil profundo e projetava, com base em análises e estudos científicos, a melhor forma de interlocução com a região: “A Amazônia é uma região sofisticada em termos de natureza, e temos de cuidar dela com a mesma sofisticação”. Essa, a forma de Bertha sinalizar que, compreender a Amazônia, exige muito mais que se deixar seduzir por sua exuberância e exotismo. Continue lendo

VER OU ASSISTIR?

VER OU ASSISTIR?

A princípio podem até parecer a mesmíssima coisa. Mas a distinção de sentidos entre essas duas palavras é fundamental pra se entender o que é o cinema. No segundo caso, é bom que se diga que quem se dispõe a pagar um ingresso, recolher-se à sala escura de um cinema e de lá sair do jeito que entrou não viu filme coisa alguma. Apenas assistiu a um filme. Ou, brincando um pouco com a mágica da regência verbal, pode até ter assistido “o filme”. Se, ao contrário, a criatura deixar a sala, após o “fim” ou o “the end”, com os ombros pesados pela preocupação com o destino dos protagonistas; Continue lendo

STEPHEN KING E A TV

STEPHEN KING E A TV

       Se dependesse da gente aqui de casa, a Globo já teria falido há muito tempo. Ela e outros canais, com sua programação, em geral, de baixíssima qualidade. Na TV fechada, costumamos garimpar com muita parcimônia alguns poucos canais. A maioria é lixo. Pois lendo “Sobre a escrita”, de Stephen King, descobri que sua opinião não é diferente da minha. Ao discorrer sobre sugestões para se formar um escritor, é taxativo: “A leitura demanda tempo, e a telinha lhe rouba horas preciosas. Desligar aquela máquina barulhenta vai melhorar não só sua escrita, mas também sua qualidade de vida”. Grato pelo alento e força, Stephen!

A REINVENÇÃO DOS BRINQUEDOS

A REINVENÇÃO DOS BRINQUEDOS

       Testa franzida, a revelar expressão de quem carrega consigo um grande peso. Com ar piagetiano e num esforço pra entender o que parecia se mostrar um grande desafio pedagógico, registra-me queixas do mancebo de sete anos, filho único do casal. Andava meio preocupada com os investimentos que vinha fazendo em brinquedos para o herdeiro. Bateu-me imediata curiosidade. Continue lendo

DUPLA DOR

DUPLA DOR

Choro, sim, pelas vidas perdidas e pelos feridos nos atentados em Paris, todos inocentes e vítimas das escolhas secretas e dos interesses inconfessáveis dos dirigentes do país e seus aliados; como choro, também, no mesmo grau de emoção, pelas vidas perdidas e estraçalhadas na tragédia de Mariana, todas vítimas da ganância e da imprevidência do capitalismo vulgar e insano de empresários que veem no lucro razão suficiente para a indiferença com a vida e a natureza.

A FOTO DO CANDIDATO

A FOTO DO CANDIDATO

       Sempre foi assim. Em épocas de caça aos votos, vive-se a ilusão de que a cidade é embalada por um contagiante clima de alegria e prosperidade. Nos cruzamentos mais movimentados, o colorido das diferentes bandeiras partidárias tremula insistentemente chamando a atenção dos que passam. As centenas de cabos eleitorais curtem com entusiasmo o ganho de ocasião, fazendo os santinhos dos candidatos chegarem às mãos dos eleitores. Continue lendo

FILMES E MÚSICAS

FILMES E MÚSICAS

       Há músicas que sobrevivem ao filme. Há filmes que sobrevivem à música. E há filmes e músicas que sobrevivem juntos e ganham corações e mentes. Se alguém ouvir falar do filme Bonequinha de luxo, por exemplo, fatalmente se lembrará de Moon river; se ouvir falar de Moon river, inevitavelmente se lembrará de Bonequinha de luxo. Neste caso, ainda, se ouvir falar em Bonequinha de luxo, é impossível não se lembrar da figura terna e meiga de Audrey Hepburn, Continue lendo