UM TEXTO NO MEIO DO CAMINHO

UM TEXTO NO MEIO DO CAMINHO

       Quem compra o doloroso e exaustivo desafio de escrever sabe disso. A relação entre o sujeito e o texto nem sempre é amistosa. Muito pelo contrário. O leitor que não se mete nessa encrenca embarca mesmo na ilusão de que escrever é um ato rotineiro como qualquer outro e não implica maiores sacrifícios. Engano. Ledo engano. Não é bem assim. É certo, dependendo de razões que a própria razão desconhece, há situações passivas em que o texto em construção fica sob controle absoluto. Como se a gente dissesse: Olhe aqui, quem manda em você sou eu! Continue lendo

ENSAIO SOBRE O FUXICO

ENSAIO SOBRE O FUXICO

       Não, não se trata de um tema banal. Foi, inclusive, pivô de um tremendo alvoroço já faz algum tempo. Espalhou-se com a velocidade de um raio a notícia. Amazonino Mendes, então prefeito de Manaus, teria se referido com desdém à comunidade dos tuiteiros, taxando-os de fuxiqueiros. A turma se sentiu ofendida. Numa demonstração de eficiência e importância do funcionamento dessa rede social, em pouquíssimo tempo a indignação ganhou a rua, ou melhor, os computadores e celulares de milhares de adeptos do Tuíter. Continue lendo

A PAIXÃO DE AURÉLIO

A PAIXÃO DE AURÉLIO

        O cinema sempre atiçou um vasto feixe de paixões. A minha, por exemplo, desde o tempo de eu menino no fantástico mundo do Cine Ideal, no bairro onde me criei, foi a de apaixonado espectador. Mas há tantas e tantas outras paixões nesse mundo da Sétima Arte! A do cineasta amazonense Aurélio Michiles, por exemplo, é reconstituir para a História, armado com a paciência de um ourives e a determinação de um desbravador, a vida daqueles que nutrem outra fascinante forma de paixão pelo cinema: a de preservar sua memória. Em “Tudo por amor ao cinema”, extraordinário documentário que estreia nesta quinta nos cinemas da rede Cinépolis, Michiles mergulha na paixão e na vida de outro amazonense, Cosme Alves Netto. Hábil o suficiente na narrativa documental, Aurélio traça um longo período que se entrelaça com a história do cinema brasileiro e a luta, muitas vezes frenética e adversa, de Cosme Netto pela preservação da memória de nossa cultura cinematográfica. A partir dessa trajetória entre narrador e narrativa, o espectador é estimulado a depreender, então, o inevitável encontro entre duas formas de paixão pelo cinema.

AS ARMADILHAS DA LÍNGUA

AS ARMADILHAS DA LÍNGUA

Todo cuidado é pouco. As palavras, quando mal administradas, podem provocar inusitadas formas de sentido. Num desses dias, lá estava escrito em manchete de um jornal local: “Polícia apura morte de rapaz após injetar hidrogel no pênis”. Como a lógica, muitas vezes, perde o comando dos efeitos de sentido, nada impede que pairem dúvidas sobre quem injetou hidrogel no pênis: se a polícia ou o rapaz.

O PREÇO DA MODERNIDADE

O PREÇO DA MODERNIDADE

Foi-se o tempo em que havia um divisor de águas entre o expediente de trabalho e o período de descanso. No tempo de eu menino, lá em São Raimundo, a fronteira entre trabalho e ócio era sinalizada pelo apito meio engasgado que escapava da chaminé da serraria Rodolfo, do outro lado do igarapé, e invadia todos os lares e ouvidos do bairro. Os toques aconteciam infalivelmente às 7, 11, 13 e 17 horas e tinham um poder tão forte e autoritário, que as máquinas eram desligadas no meio de uma operação de corte de uma tora de madeira. A vida dos operários e, por consequência, a nossa eram reguladas e disciplinadas por aqueles apitos. Continue lendo

SINTONIA DE GÊNIOS

SINTONIA DE GÊNIOS

O fenômeno mais enriquecedor e fascinante do ato de ler é ele nunca se curvar aos limites do texto. O que pretendo dizer com isso? Um texto tem, sim, seus limites, convenciona-se, inclusive, pelo uso do chamado ponto final. Mas tais limites são apenas físicos. Discursivamente falando, para buscar apoio em Umberto Eco, todo texto é sempre uma obra aberta. Nunca começa e termina em si. Cada palavra, cada frase, cada parágrafo remetem sempre a tantos outros textos, a tantas outras situações, a tantos outros episódios e circunstâncias, formando uma espécie de rede, esta sim, sem limites e fronteiras. Um texto, portanto, será sempre mero pretexto para chegarmos a outros e infinitos textos. Continue lendo

A POÉTICA DA INOVAÇÃO TECNOLÓGICA

A POÉTICA DA INOVAÇÃO TECNOLÓGICA

Meu sentimento de leitor anda encantado com o livro “Os inovadores – uma biografia da revolução digital”, de Walter Isaacson, da editora Companhia das Letras, lançado em 2014. Trata-se daquele tipo de leitura que, quanto mais você mergulha, mais mergulhos quer dar. À primeira vista, pode soar estranho para quem, como eu, teve formação acadêmica na área de Humanas e fez uma breve incursão de nove anos na área de gestão em CT&I nos últimos anos. A resposta para esse deslumbre encontro em duas premissas que sempre carreguei comigo e que a densa obra de Isaacson confirma, de maneira alegre e categórica, em cada uma de suas páginas. Continue lendo

O DURO OFÍCIO DA ESCRITA

O DURO OFÍCIO DA ESCRITA

Já faz um bom tempo e foi uma interessante coincidência. Havia assumido comigo mesmo o compromisso. Seria a última tentativa para encontrar, naquele momento e dentre dezenas de canais, um que estivesse com uma programação decente. Caso não desse certo, clicaria com frieza o botãozinho do controle remoto e iria cantar em outra freguesia. Contei até três e apostei aleatoriamente no próximo canal. Captei o final das palavras do entrevistador. Perguntava ele sobre o prazer dela já ter produzido diversas obras de referência para a literatura brasileira e continuar escrevendo semanalmente crônicas para o jornal O Estado de S. Paulo. Continue lendo

MINHA DISCORDÂNCIA COM O BORGES

MINHA DISCORDÂNCIA COM O BORGES

Não, não concordo com o Borges. Afinal, não dá pra aceitar que o leitor seja um ser passivo, apenas um repositório daquilo que ele literalmente absorve de um livro. O leitor é muito mais que isso. Ele tem aquilo que Bakhtin chamou de “atitude responsiva ativa”. Em outras palavras, simultaneamente ao contato com o texto, vai construindo, mesmo silenciosamente, o seu próprio texto: incorpora o dito pelo escritor, discorda, faz reparos, acrescenta detalhes, apresenta alternativas diferentes das que estão sendo postas, omite-se covardemente, reage com intolerância, torna-se cúmplice, entra em conflito, emociona-se, é levado a sonhar, a ficar perplexo, além de tantas e tantas outras reações por ele mesmo imperceptíveis, uma vez que decorrem daquilo que os estudiosos da linguagem chamam de formação discursivo-ideológica.
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