PAIXÃO POR LIVROS

PAIXÃO POR LIVROS

       Sabe dessas coisas que azucrinam dias e dias na cachola? Pois foi assim desde que li um texto na seção Brasiliana, da revista Carta Capital, dando conta de que uma editora de São Paulo decidira incinerar 3.700 exemplares de dois livros da escritora Chantal Dalmass. A alegação empresarial era de que a obra apresentava “nível insatisfatório de rotação comercial”. Numa tradução à altura dos pobres mortais, os livros estavam encalhados. Já movido pela aflição, entre a passagem do primeiro para o segundo parágrafo da matéria, o óbvio me veio à cabeça. Por que não realizar uma estupenda promoção e torrar os livros a R$ 1,00 ou R$ 2,00 o exemplar, em lugar de dar a eles um fim tão cruel e perverso? Leitores interessados haveriam de aparecer e as obras cumpririam o seu natural destino: o de serem lidas e ganharem merecido abrigo em alguma prateleira de estante. Afinal, há leitores para todos os gostos. Tinha me precipitado. Proposta nesse sentido já havia sido recusada pelos algozes. Pra encurtar a história, de um final quase trágico, Dalmass montou, às suas custas, uma complicada operação de resgate e deu asilo às 2,8 toneladas de livros em seu pequeno apartamento, imaginem vocês, no nono andar do prédio onde mora. Desde lá, numa missão digna do Alto Comissariado da ONU para fins humanitários, ocupa seus fins de semana, em praças e feiras da capital paulista, doando as obras a quem se disponha a adotá-las. Só ficará sossegada e em paz consigo mesma depois de assegurar que o último rebento estará em boas mãos e em lugar seguro. Emocionou-me o episódio. Tanto que, num fim de semana, realizei uma sessão extraordinária aqui no meu Cinema Paradiso para rever, pela sétima vez, um filme de 1986 com Anne Bancroft e Anthony Hopkins que sempre me sensibiliza. “Nunca te vi, sempre te amei”. Comovente história de troca de correspondência durante duas décadas entre uma escritora americana, de Nova Iorque, e um dedicado funcionário de uma livraria britânica, que trabalha com obras raras, unidos por um fio condutor: a paixão pelos livros. E, enquanto viajava pela emoção do filme do diretor David Jone, veio-me à lembrança a figura do Arthur Sena, cujo nobre ofício é restaurar livros, dando-lhes nova e rejuvenescedora vida. Certa vez, ao me devolver alguns exemplares novinhos em folha, ele não perdeu a oportunidade de me dar uma dura reprimenda, diante de minha velha mania de guardar bilhetes e cartões dentro de livros. “Livro não é depósito, Odenildo”. E pensar que alguém, como os inquisidores da Editora Planeta, tem coragem de mandar para a fogueira produto de que a humanidade é tão carente.

Share on Facebook0Tweet about this on TwitterShare on Google+0Pin on Pinterest0Email this to someonePrint this page