PARA SEU MAIOR CONFORTO

PARA SEU MAIOR CONFORTO

       Quem não passou pela situação em que, durante uma conversa amena ou, principalmente, num contexto de desentendimento, uma das pessoas, para se defender de acusação injusta, precisa dizer à outra: “Não coloque palavras suas em minha boca!”. Se, nessas circunstâncias, o expediente torna-se perceptível, em muitas e muitas outras ele funciona como uma poderosa arma ideológica e traduz uma das mais bem elaboradas e sibilinas artimanhas do discurso. Os funcionários das empresas aéreas são bastante treinados nessa pródiga estratégia de transferir aos passageiros – ou “clientes” – responsabilidades, transtornos, iniciativas ou decisões que rigorosamente não lhes cabem. Do ponto de vista discursivo-ideológico, tal princípio trabalha muito com a valorização do ego, pois estimula os indivíduos a se sentirem inteligentes, respeitados, valorizados. Do ponto de vista da cidadania, em muitos casos mostra-se extremamente nocivo, pois abre um perigoso espaço para o conformismo e a leniência, face a situações que exigiriam enérgica reação desses mesmos indivíduos. Cito um caso bem recorrente. O cidadão adquire a sua passagem com bastante antecedência, muitas vezes via internet, e faz a reserva do seu assento preferido, atendendo a disponibilidade oferecida pela empresa aérea. Chegando ao aeroporto, no momento do despacho de sua bagagem, confirma aquela reserva de assento. Recebe o cartão de embarque ratificando aquele mesmo assento. Para sua surpresa, ao entrar na aeronave ouve o anúncio de que “especialmente para este voo, os assentos estão liberados para livre escolha dos senhores passageiros”. Ou seja, transformam a quebra de contrato num situação especial, e o desconforto numa salutar prerrogativa dos passageiros, como se a eles estivessem oferecendo a melhor das opções. Cito outro caso não menos comum, principalmente em viagens noturnas. Subitamente os passageiros se veem no escuro, sob a alegação de que as luzes da cabine estão sendo desligadas “para atender o seu maior conforto”. Conforto de quem, cara pálida, se eu não fui consultado sobre isso? Ou seja, atribuem aos passageiros desejos que não são seus, mas dos comissários, que não querem ser importunados. Muito cuidado, portanto, para não embarcar nas armadilhas discursivas das empresas, mesmo quando a frase for comercialmente inteligente e anunciar: “Sabemos que a escolha da companhia aérea é uma decisão do cliente. Obrigado por escolherem a TAM”.

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