PARINTINS DE MÚLTIPLOS OLHARES

PARINTINS DE MÚLTIPLOS OLHARES

Já nem me lembro bem quando foi. A recepção aos visitantes nada tem de convencional. Enquanto na sala de desembarque aguardávamos as malas e caixas de livros, passamos a ouvir, a princípio distante, como algo remoto, o som ritmado dos tambores naquela animada cadência que embala as pernas dos mais tímidos e resistentes no famoso movimento dois pra lá dois pra cá. Com a abertura da porta que dá acesso ao estacionamento, o rufar dos tambores aproxima-se, invade nossos ouvidos e nos brinda com um delicioso abraço. Agora, visualizamos melhor a cena. Dezenas de crianças comandam com extrema habilidade e largos sorrisos aqueles instrumentos de percussão. Nessa altura, impossível ter absoluto controle sobre os movimentos. Mesmo simulando controle e indiferença, o coração se ajusta ao ritmo e se torna indisfarçável o reflexo no tic-tac das mãos, que se misturam a abraços de boas vindas embalados pela clássica saudação: “Sejam bem vindos os visitantes que vêm nos trazer o seu alô…” Jeito espontâneo e carinhoso de receber os que chegam.

Do aeroporto à próxima parada, cinco minutos e uma nova surpresa. Por entre árvores que se debruçam sobre os visitantes, chega-se a uma espécie de hall. Sob uma cobertura que liga a ala administrativa a blocos de salas de aula, diferentes grupos se aglomeram em torno de cartazes, maquetes, bancas de livros, exposições de relatórios de pesquisa e tantas outras atrações. Enquanto alguns observam e analisam atentamente o material exposto, outros discutem acaloradamente os temas ali suscitados, outros, ainda, entoam alegres músicas cujas letras fazem referência àquele momento. De comum, a denunciar a razão da efervescência, todos trajam orgulhosamente camiseta branca, estampando no peito o mapa do município, de cujo centro partem diversas setas em diferentes rumos revelando diferentes preocupações, metas a serem alcançadas ou, sintetizando o tema do evento, múltiplos olhares: formação profissional, línguas indígenas, ensino e pesquisa, extensão, estudos literários, cultura amazônica, estudos linguísticos. Embora ocupe um espaço de pequena dimensão, a cena nada deixa dever ao dinamismo do ambiente acadêmico que se respira nos campi de grandes e conhecidas universidades brasileiras.

De repente, motivadas pelos apelos que partem do sistema de som de um trio elétrico, as pessoas formam um longo e animado cortejo de bicicletas, motos e carros e seguem pelas principais ruas da cidade anunciando a abertura da Primeira Semana de Letras da UEA no município. Durante todo o trajeto, os transeuntes param e cumprimentam aquela multidão em movimento, ao mesmo tempo em que as janelas das casas vão-se abrindo num efeito dominó e nelas surgem mãos acenando como se tratasse de uma ação combinada entre os que passam e os que saúdam. A retribuição por esse carinho das ruas vem de forma surpreendente e inusitada: do alto do trio elétrico, declamadores se revezam em alto e bom tom viajando na poesia de Élson Farias, Thiago de Melo, Violeta Branca, Alcides Werk, Jorge Tufic, Luiz Bacellar, Aníbal Beça, Astrid Cabral e tantos outros. Como se fizessem cumprir a determinação de que, se o povo não vai à poesia, a poesia vai ao povo.

Dentre outras, duas lições podem ser extraídas dessas cenas. De um lado, representam apenas um pequeno recorte da intensa e diversificada programação da Semana de Letras vivida naquele momento pela cidade e mostram que, com iniciativa e simplicidade, é possível fazer com que a universidade pública se misture e se confunda com a população. De outro, são um indicativo seguro de que a função social da universidade pública só ganha sentido quando, na mesma medida em que produz conhecimentos, faz com que esses mesmos conhecimentos cheguem sem demora àqueles que verdadeiramente a sustentam. Tanto uma quanto outra lição fazem dos professores e alunos do Curso de Letras de Parintins um belo exemplo de como se fazer universidade.

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