PODER E IMPUNIDADE

PODER E IMPUNIDADE

       Chegar à última página de “Operação banqueiro”, do jornalista Rubens Valente, publicado pela Geração Editorial, é saltar para um mundo surreal e ver-se acometido por um estado de espanto e de extrema frustração. Não com a obra, extraordinário trabalho de jornalismo investigativo, mas com os fatos estarrecedores nela revelados, a comprovar que, no Brasil, o crime continua tendo suas compensações. O banqueiro Daniel Dantas, por exemplo, principal protagonista das páginas de Valente, “conseguiu no STF dois habeas corpus sucessivos num intervalo de poucos dias, a queda estrepitosa do delegado do caso, a exoneração do chefe do serviço secreto do Palácio do Planalto, o bloqueio de toda a investigação, em decisão do STJ, depois, conseguiu a revisão e a paralisia temporária de seu processo”. Até hoje, estranhamente, não se tem o desfecho do caso. Isso é que é poder! Mas é preciso registrar que ele foi, também, um dos principais protagonistas da atribulada e temerária onda privatista durante o governo de FHC, aí incluídos, é claro, a Companhia Siderúrgica Nacional e o Sistema Telebrás. Astuto, seduziu para o seu grupo, não à toa chamado de Opportunity, duas figuras de ponta que ocuparam importantes cadeiras no governo tucano: Pérsio Arida, presidente do Banco Central, e Elena Landau, coordenadora do programa de desestatização do BNDES. Tá tudo lá, documentado página a página. Mas isso é pouco, muito pouco, diante da vasta teia de armações tenebrosas factualmente garimpadas pela paciência e pela determinação de Rubens Valente. É preciso, portanto, ler a obra de cabo a rabo. Mesmo ciente do profundo sentimento de frustração ao saltar para a última página. Afinal, é o duro preço que o leitor de “Operação banqueiro” pagará para se convencer da trágica evidência de que a justiça não é aquela que passa ao vivo e em cores na televisão.

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