SINTONIA DE GÊNIOS

SINTONIA DE GÊNIOS

O fenômeno mais enriquecedor e fascinante do ato de ler é ele nunca se curvar aos limites do texto. O que pretendo dizer com isso? Um texto tem, sim, seus limites, convenciona-se, inclusive, pelo uso do chamado ponto final. Mas tais limites são apenas físicos. Discursivamente falando, para buscar apoio em Umberto Eco, todo texto é sempre uma obra aberta. Nunca começa e termina em si. Cada palavra, cada frase, cada parágrafo remetem sempre a tantos outros textos, a tantas outras situações, a tantos outros episódios e circunstâncias, formando uma espécie de rede, esta sim, sem limites e fronteiras. Um texto, portanto, será sempre mero pretexto para chegarmos a outros e infinitos textos. Estou a me lembrar disso a propósito da leitura, já nem sei quando, de um artigo de José Saramago. Nele, o escritor português, mesmo advertindo não ter conhecimentos técnicos acerca do vírus da chamada gripe suína, arrisca uma análise sobre os acontecimentos de bastidores da pandemia que continua preocupando o mundo. E alicerça seu texto, segundo ele próprio ressalta, na leitura de outros textos: “Leio com atenção os jornais, ouço e vejo as reportagens da rádio e da televisão e me valho de alguma leitura providencial.” Depois de fazer referência a alguns trabalhos de natureza científica, a dados estatísticos e às evidências do absurdo crescimento do setor pecuário, por ele comparado à indústria petroquímica, o escritor denuncia o extraordinário poder econômico e político dos grandes conglomerados empresariais avícolas e bovinos, ao ponto de influenciarem os rumos de investigações que possam revelar alguma responsabilidade do setor na propagação do vírus da gripe suína. Pois bem. Antes mesmo de terminar a leitura do texto de Saramago, meu sentimento de leitor viu-se alertado para o fato de que, em algum outro momento, havia lido algo direta ou indiretamente em sintonia com aquelas questões. Insisti com meu disco rígido. Foi bater e ver. Semanas atrás havia me deliciado com uma crônica de Machado de Assis escrita em 1893. Nela, o escritor brasileiro reflete sobre as doenças e o modismo dos medicamentos e ressalta que, da indústria humana, tudo se pode esperar: “O homem receitará tonturas ao homem. Haverá fábrica de resfriados. Vender-se-ão calos artificiais quase tão dolorosos como os verdadeiros.” A leitura de Saramago, que me conduziu a Machado, revelou-me uma perfeita sintonia entre gênios.

Share on Facebook0Tweet about this on TwitterShare on Google+0Pin on Pinterest0Email this to someonePrint this page