SOB O SIGNO DA LUCIDEZ

SOB O SIGNO DA LUCIDEZ

Nada melhor que a ida descomprometida a uma livraria. Aquele paciente ritual de percorrer as diversas prateleiras, flertando com capas, contracapas, orelhas e sumários, não raras vezes é recompensado com alguma descoberta surpreendente. Sempre acontece comigo, como há poucos dias, quando me deparei com uma obra tão fascinante, que me vi obrigado a negociar comigo mesmo o desrespeito à enorme fila de livros que, por hábito, estou sempre organizando sobre a minha mesa de trabalho.

Nas suas primeiras páginas, em um formato pergunta e resposta, o autor é entrevistado e levanta uma questão que desvela o comportamento da mídia americana. Dois fatos simultaneamente acontecidos em 2002. Em Nova York, cientistas admitem que as chamadas “bombas sujas”, aquelas cujo impacto de destruição é pequeno, mas tem um enorme poder radiativo, se usadas, por exemplo, naquela cidade, deixariam um terrível rastro de doenças, o que causaria um pânico inimaginável. Em Hanói, numa conferência sobre os efeitos da guerra química norte-americana no Vietnã do Sul, um grupo de cientistas comprova que o nível da dioxina, principal ingrediente venenoso do Agente Laranja, é altíssimo em várias partes do país. Para o primeiro caso, representado apenas pela possibilidade de uso e projeção de eventuais consequências, os mais destacados jornais do país reservaram matérias de primeira página. Para o segundo, representado pelo fato de que, como se sabe, centenas de milhares de pessoas morreram e tantas outras carregam até hoje sequelas daquela barbárie, somente uma ou duas notinhas, daquelas que se perdem em algum canto desvalorizado de um jornal. Isso é revelador da diferença entre o que é ou não relevante para a mídia americana.

Mas o livro não fica por aí. Situa o leitor diante de fatos históricos que, trazidos para os dias atuais, funcionam como um decisivo contraponto e ajudam desnudar as verdades cristalizadas por essa mesma mídia. Com uma clareza de redação que não é comum nesse tipo de trabalho, o texto resgata, por exemplo, que há duas décadas um especialista da Universidade da Carolina do Norte, em paciente pesquisa, constatou que a ajuda do governo americano aos países da América Latina tinha uma surpreendente correlação com o aumento dos abusos aos direitos humanos. Apesar disso, sempre prevaleceu a retórica de que os Estados Unidos estavam a serviço da democracia e da liberdade. Inquieta o leitor com a lembrança das mortes e da destruição na Nicarágua, hoje o segundo país mais pobre do hemisfério, o que resultou na condenação dos Estados Unidos pelo Tribunal de Justiça Internacional, colocando-o na condição de “único Estado do mundo que foi condenado por terrorismo internacional”, situação no mínimo paradoxal para o país que, hoje, considera-se o líder da “Guerra ao Terrorismo”. Atiça a memória para o jogo histórico do ontem e do hoje, ao lembrar que, a partir 1959, o grande pretexto do governo americano para a guerra contra Cuba estava centrado na convicção de que o país representava um dos perigosos tentáculos do império russo, disposto a disseminar a doutrina comunista no resto do mundo. A partir de 1989, curiosamente essa razão deixou de existir, mas outras foram fabricadas e reforçaram o cruel embargo econômico à Ilha, o que remete ao episódio da invasão do Iraque. Como se sabe, o presidente americano desprezou a orientação da ONU e justificou o ato afirmando que o governo iraquiano estava produzindo armas químicas. Já que o pretexto não se sustentou por muito tempo, criaram-se outros, dentre os quais a guerra contra o terrorismo. São fatos que, se causam indignação ao leitor, também dão a ele um precioso conhecimento de causa para, doravante, avaliar com menos ingenuidade a presença dos Estados Unidos no mundo.

Isto representa apenas alguns lances dos tantos outros que, coerentemente costurados entre si, fazem do livro Poder e terrorismo um documento indispensável para melhor se compreender como, sibilinamente, se dá a perversa relação entre a maior potência econômica do mundo e os países que lhe são incômodos, e como funciona a mídia americana, projetando essa mesma forma de relação e pautando mundialmente a fabricação das notícias.

Só mesmo um aguçado senso crítico e uma extraordinária lucidez, surpreendentemente de um americano, Noam Chomsky, para, vivendo naquele país, ser capaz de se distanciar dele e construir reflexões de tamanha contundência e realismo.

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