UM POBRE NA PRIMEIRA CLASSE

UM POBRE NA PRIMEIRA CLASSE

       Deu-se há muito tempo. Vivíamos os derradeiros suspiros da nossa saudosa Varig. E me dou conta, aqui e agora, do quanto é curioso esse tratamento especial dispensado a uma marca, a demonstrar que mantínhamos com ela uma relação com fortes laços familiares, como se fosse algo próximo, íntimo, amigo. Penso até ser lícito falar da geração Varig. Não, não vejo nada de simplório nisso! Acho legítimo esse saudosismo. Afinal, dessa geração, quem não carrega ainda vivíssimas num cantinho da memória as boas lembranças daquela sequência com que o harmonioso vocal encerrava as peças publicitárias no rádio e na televisão: Varig… Varig… Varig… E na programação de domingo à noite, na rádio Rio Mar, quando a Varig era “dona da noite”, com uma impecável programação musical? E aquela musiquinha da época do Natal, que sempre teima em reverberar até hoje em nossa cabeça? “Estrela brasileira no céu azul, iluminando de Norte a Sul…”

       Vejam como são as coisas. A referência à Varig era apenas para lembrar que, por pura coincidência, um dia fiz o trecho Manaus-São Paulo no gigante DC-10 viajando de primeira classe. O voo estava vazio. Um dos comissários, percebendo minha admiração por aquele espaço privilegiado, bondosamente permitiu que eu vivesse minhas três horas de gente endinheirada. Só eu sabia da grossura volumosa do meu carnê. Abanquei-me no melhor estilo na aconchegante poltrona. À frente, uma espaçosa escrivaninha, sem contar com tantos outros apetrechos que me exigiram algum tempo até descobrir sua completa funcionalidade. Muitos anos depois, por exigência de trabalho, tive que empreender viagem ao exterior. Coube-me sair de São Paulo num Boeing 777, justo naquela fileira da classe econômica fronteira com a primeira classe. Pude, então, sentir na pele o que separa esses dois ambientes. Embarcados os passageiros, a comissária, que parecia me olhar com certo desdém, como quem diz “quem manda ser pobre”, de um só e brusco lance puxou a cortina e tacitamente estabeleceu: aquele outro mundo não me pertencia. Em seguida, na nossa ala os comissários começaram a servir uma rodada de água naqueles conhecidos copinhos plásticos. Levado pela curiosidade, estiquei a perna direita e abri uma discreta fresta naquele muro de Berlim. No exato momento, aquela mesma comissária, com largo sorriso e a boca cheia de dentes, distribuía aos habitantes do planeta vizinho, em taças de cristal, o que eu vislumbrei ser, pelo rótulo da garrafa, um daqueles champanhes produzidos nos arredores de Paris na região que lhe dá o nome. Lá pelas tantas, aeronave já em velocidade de cruzeiro, entretive-me a assistir, pela mesma fresta, um filme no monitor do vizinho da primeira classe, muito maior e com melhor definição que o minúsculo à minha frente. Quando estava no melhor, a comissária algoz, percebendo a invasão aérea do território proibido, fez questão de colocar a cortina no lugar, cortando-me o barato.

       Lembrei do tempo de eu menino, em São Raimundo, quando assistíamos, por uma das altas janelas laterais do cine Ideal, aos pedaços dos nossos heróis na grande tela. No melhor da festa, o insensível gerente do cinema fechava a persiana e nos deixava a ver navios, frustrando nossos sonhos.

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