VER OU ASSISTIR?

VER OU ASSISTIR?

A princípio podem até parecer a mesmíssima coisa. Mas a distinção de sentidos entre essas duas palavras é fundamental pra se entender o que é o cinema. No segundo caso, é bom que se diga que quem se dispõe a pagar um ingresso, recolher-se à sala escura de um cinema e de lá sair do jeito que entrou não viu filme coisa alguma. Apenas assistiu a um filme. Ou, brincando um pouco com a mágica da regência verbal, pode até ter assistido “o filme”. Se, ao contrário, a criatura deixar a sala, após o “fim” ou o “the end”, com os ombros pesados pela preocupação com o destino dos protagonistas; ou irritado com o desfecho inusitado; ou mesmo feliz, porque a previsibilidade bateu com suas expectativas; ou, ainda, furibundo, porque aqui e ali perdeu o fio da meada; ou porque teria um sugestão muito mais fantástica e atraente pro final da história; ou não entendeu patavina dos noventa minutos que durou o filme; ou saiu da sala rindo com as paredes; ou achou o filme uma grande droga; enfim, se, ao final da sessão, o seu estado de espírito identificou-se com um dos sugeridos acima ou outros quaisquer, aí, sim, a criatura, de fato, foi além do ato de assistir. Viu o filme. A distinção, pois, entre as duas palavras é a chave mágica pra não desgrudar do livro “Como ver um filme” (Nova Fronteira, 2012), de Ana Maria Bahiana. Isso mesmo! Li, como se dizia antigamente, de cabo a rabo e fiquei encantado.

Mas há duas outras fortes razões pra devorar o livro. Pra quem não dá muita bola pra Sétima Arte, Ana Maria monta uma bela armadilha, com um texto fluente e cativante, sem proselitismo e despido de vaidade, que certamente deixará o neófito chateado por não ter se transformado em um cinéfilo há mais tempo. Já para os que se julgam soberbos conhecedores do ramo, “Como ver um filme” demonstra que o melhor mesmo é calçarmos “As sandálias do pescador” e nos darmos conta de que, embora sempre fascinante, uma produção cinematográfica, antes de chegar diante de nossos olhos e sentidos, envolve uma teia de complexidade inimaginável. E essa teia, diferente do que pensamos, é fundamental como elementos subjacentes pra entendermos a essência do que vai pra telona das salas de exibição ou pra telinha do monitor em nossa casa.

Por fim, uma dica valiosa. Eu sempre achava que o material extra que acompanha os DVDs e Blu-rays devesse ser visto depois do filme. Sempre fiz assim. Ledo equívoco. Ana Maria Bahiana me convenceu, sem nenhuma resistência de minha parte, de que assisti-lo antes nos prepara pra entender nuances que passariam batidas de nossa compreensão e emoção. Melhor ver do que assistir.

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